top of page
Buscar
  • Foto do escritorAlessandra Steffens Bartz

Vamos aprender a brigar?

Atualizado: 6 de out. de 2020

Ouvir falar em briga tende a despertar em nós uma conotação negativa, de algo que devemos evitar. Mas será possível não brigar? Conflitos são inevitáveis. Somos diferentes e, por isso, teremos desentendimentos. Portanto, briga é um assunto que precisa ser colocado na pauta das aprendizagens necessárias para a vida. Especialmente, aprender a brigar construtivamente, de modo ético.


Temos dificuldade em lidar com as brigas. Alguns brigam muito, outros evitam brigar e há aqueles que se machucam muito nessas disputas. Mas os excessos não são saudáveis; nem brigar muito, nem não brigar nunca. Quando um casal diz que nunca brigou, há algo para ser entendido nessa relação. Contudo, o conflito pode ser positivo ou negativo. A briga pode ser destrutiva, estraçalhar as relações, ferir as pessoas. Assim como pode ser construtiva, permitindo compreender pontos de vista e chegar a um consenso ou melhor entendimento.


Mas não é fácil brigar com elegância, pois isso pressupõe lidar com uma série de emoções. Aprendemos em nossa família de origem a lidar com as emoções de raiva, medo, tristeza, mágoa. Convivendo juntos, aprendemos com os pais e outros familiares próximos como reagir frente às emoções básicas. Dessa forma, os filhos são instrumentados para se relacionar e lidar com a rejeição, com a solidão, com o dar e receber. Algumas famílias tendem a brigar muito, o que não raro gerará um filho brigão. Pais que discutem na presença dos filhos estão fornecendo um modelo de relação. Brigas de casal devem ser conduzidas para um espaço privativo. De preferência, a briga que não destrói o opositor. É preciso atacar o problema e não a pessoa. Essa é uma premissa da briga construtiva, mais leve, cooperativa.


Outra premissa importante requer o entendimento de que seus sentimentos são sempre sobre você mesmo. Eles revelam suas necessidades de serem amados, ouvidos, afirmados. Aprender que os sentimentos são sobre você e perceber suas emoções facilita a responsabilidade sobre o que sente. Quer dizer que, se uma pessoa fica magoada por não receber toda atenção que deseja, esse sentimento fala das suas carências, do modo como lida com a rejeição. Saber disso evita ou ameniza muitas brigas. Mas preste atenção: a tendência é culpar o outro pelo que você sente.


A família é o espaço para aprender a lidar com as emoções. Essa é uma importante tarefa dos pais. A forma como os pais facilitam ou dificultam que seus filhos lidem com as emoções depende muito de como eles lidam com seus próprios sentimentos. É importante tomar consciência das emoções, aprender a expressá-las de forma coerente e desenvolver a possibilidade de ter controle sobre elas. Quando os pais evitam frustrar os filhos, dando tudo o que querem, estão privando-os dessa aprendizagem por eles próprios não lidarem bem com as emoções envolvidas. O desenvolvimento e o controle emocional exigem tempo, muitas aprendizagens.


A raiva, muito presente nas brigas, é uma das emoções que sofre maior repressão na educação das crianças. Isto acontece pela dificuldade dos adultos em lidar com a expressão da sua própria raiva e também pelo medo de que a agressividade saia do seu controle. Mas sentir raiva é normal. Contudo a raiva pode ser expressa de maneira aceitável ou inaceitável. Posso falar enfaticamente sobre o que me deixou enraivecido, mas não devo expressar isso de modo que machuque o outro fisicamente ou com palavras que depreciem, humilhem e desrespeitem. Há muitos sentimentos que acompanham a raiva ou até são disfarçados por ela, como a rejeição, baixa tolerância à frustração, tristeza, medo de ser dominado. Descobrir alternativas aceitáveis da expressão da raiva é uma tarefa significativa no processo de desenvolvimento. Temos o direito de enfurecer-nos, e o dever de civilizar a raiva impulsiva, destrutiva. Ou seja, temos que aprender a tomar conta da raiva antes que ela tome conta da gente.


Acredito que, se nos dermos conta dos nossos sentimentos e das formas de lidar com eles, muitas brigas infrutíferas podem ser evitadas ou conduzidas de modo mais produtivo e construtivo. Aprender a brigar pode ser o primeiro passo em direção ao controle sobre os sentimentos violentos que podem levar a assassinatos e guerras. A humanidade não poderá lidar com a hostilidade entre as nações até aprender a criar meios que evitem a hostilidade entre pessoas que se amam. O cultivo da paz e harmonia se inicia na família. Vamos aprender a brigar?


Gostou do tema? Esse texto foi embasado no livro “Brigas na Família e no Casal: aprendendo a brigar de forma elegante e construtiva”, de Solange Maria Rosset. Vale a leitura!


Texto publicado no jornal Gazeta do Sul, julho/20.

Ilustração: Matheus Steffens Bartz - Instagram: instagram.com/mbartzart


9 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page