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  • Foto do escritorAlessandra Steffens Bartz

Salvem as crianças!

Atualizado: 10 de nov. de 2020

Existe maior beleza do que uma criança curiosa, experienciando, explorando, crescendo? As crianças encantam, surpreendem, enchem a casa de alegria. Já foi dito que elas serão o futuro da nação. Portanto, precisamos cuidar e investir na infância. Os estudos vêm abarcando o desenvolvimento infantil, seus impasses e como estimular habilidades. Além disso, nosso olhar não pode deixar de mirar a infância na atualidade.

Houve um momento na história em que crianças foram tratadas como adultos; participavam dos eventos do mundo adulto e se vestiam de modo semelhante. Com o avanço da ciência, entendeu-se que a infância é um período diferenciado do desenvolvimento humano. Tempos depois, começou-se a desenvolver produtos e a fazer marketing para crianças. E hoje, frente a alguns sinais de alerta, podemos vislumbrar que nossas crianças podem estar em risco.

Muitos pais se ocupam de estimular seus filhos, desejando que sejam inteligentes, saibam inglês e possam concorrer a um bom emprego no futuro. Mas de quais estímulos uma criança precisa? As crianças carecem de afeto, cuidado, limites e de brincadeiras. Algumas nem necessitam de brinquedos. Abóboras já foram bonecas, espigas de milho serviram como carrinhos e a bola era feita de uma coletânea de meias. Nossos pequenos não precisam de brinquedos requintados, caros. Precisam aprender a explorar os recursos do ambiente, usar sucatas para construir brinquedos e brincadeiras, desejar brincar.

Os bebês evidenciam que materiais variados podem ser muito divertidos. Uma caixa de papelão, a tampa de uma panela ou um tubo de pasta de dente. Qualquer coisa pode alegrar um pequeno! As primeiras experiências das crianças são sensório-motoras, ou seja, envolvem os sentidos e movimentos. Os pequeninos olham, escutam, cheiram, colocam na boca, apalpam, se movem. Mais adiante, caminhar na grama, correr atrás de um passarinho, estudar atentamente as folhas e galhos caídos, pode ser uma grande aventura, rica em experiências e aprendizados.

Crianças que não vivenciam atividades como correr, pular, subir em árvores ou em um muro, estão apresentando dificuldades motoras e de coordenação. Por isso o papel da educação infantil não é somente sentar na mesinha e rabiscar a folha. É proporcionar vivências com estímulos variados, muitas brincadeiras, música, dança, teatro, atividades físicas. O desenvolvimento motor amplo leva à habilidade de motricidade fina, mais tarde necessária para a escrita. Esta etapa é o alicerce do ensino fundamental. E é através da ludicidade que a criança se desenvolve em todas as áreas.

Crianças com bom desenvolvimento motor, tendem a ter habilidades espaciais mais desenvolvidas, o que favorece a aprendizagem posterior da matemática. A motricidade fina desenvolvida permite a letra bonita, o recorte preciso, a facilidade para fazer o laço do tênis. Experiências com som, luz, cores, movimentos, texturas, cheiros e gostos, estimulam os órgãos dos sentidos, formando o perfil sensorial de cada um. Ser muito seletivo com alimentos, implicar com etiquetas ou tipos de tecidos das roupas, irritar-se com o peso dos cobertores, são questões sensoriais. Precisamos explorar nossos sentidos para integrá-los num funcionamento sincronizado. Quando as crianças não vivenciam ricas situações de exploração dos sentidos, podem apresentar dificuldades de coordenação, de atenção e inclusive de aprendizagem. Além disso, é através de vivências variadas que as crianças vão desenvolvendo o senso de si, do outro, criando confiança em si e nos demais. Aprendem as regras dos relacionamentos na família e na relação com outras crianças. Identificam emoções, aprendem a resolver problemas.

Olhemos para as crianças. Muitas estão sedentárias, acima do peso, descoordenadas, mas cada vez mais ágeis nas telas. As crianças não precisam de telas. Geralmente quem precisa são os pais. Elas devem brincar com diferentes estímulos, dentro e fora de casa, sozinhas e acompanhadas. Crianças felizes são ativas, inventam brincadeiras, pedem companhia. Para isso precisam de roupas confortáveis e não a miniatura da roupa dos adultos. Deixemos para os pré-adolescente e adolescentes os saltos, as maquiagens, a coleção de esmaltes e os celulares.

Salvem as crianças! Fase tão rica e bela não pode estar cada vez mais curta e atravessada por conteúdos adultos. Não permitamos que youtubers participem da criação de nossos jovens infantes. Criança precisa brincar e cantar músicas infantis. São as brincadeiras que permitem os desafios ideais para o seu desenvolvimento. Brincar é tão sério, que se trata de um critério de saúde mental na infância. Vamos cultivar o que é da criança, selecionando os conteúdos que se adequam ao seu desenvolvimento saudável. O sequestro da infância deixará marcas futuras no desenvolvimento. E somos nós, adultos, os responsáveis pela garantia da infância a todos os pequenos.


Texto publicado no jornal Gazeta do Sul, outubro/20.

Ilustração: Matheus Steffens Bartz - Instagram: instagram.com/mbartzart



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